Publicado no JORNAL O GLOBO - 26/07/2018
POR EDUARDO VESSONI
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| Poço azul - Riachão - Maranhão |
CAROLINA - No sudoeste
do estado, bem longe de cenários mais populares do turismo regional, a Chapada
das Mesas é o Maranhão em estado bruto. É o Brasil sem ser lapidado, nem
disfarçado com maquiagem. É do jeito que se vê, sem se apegar ao bistrô descoladinho,
ao hotel de charme ou às terapias alternativas. O turismo por ali acontece do
lado de fora. E isso não é pouca coisa.
A região, formada por
dez municípios, entre eles Carolina, Imperatriz e Riachão, é endereço de um dos
pontos de preservação mais desconhecidos do Brasil. O Parque Nacional da
Chapada das Mesas, criado em 2005, protege cerca de 160 mil hectares, numa área
de transição entre o cerrado, a caatinga e, vejam só, a Amazônia, em pleno
Nordeste.
Paraíso
pouco explorado
O nome da região, que
tem a cidade de Carolina como base, vem dos platôs em forma de mesa que quebram
a monotonia das imensas áreas verdes, recortadas por rochas de arenito com
milhares de anos.
Sem plano de manejo
ainda definido e um processo de desapropriação que se arrasta por anos, o
parque ainda não conta com estrutura turística e recebe visitantes com apenas
duas atrações, com entradas de R$ 15 cada. Ambas já seriam suficientes para
justificar a viagem até uma região tão isolada das principais capitais
nordestinas.
A primeira é a
Cachoeira do Prata, um conjunto de quedas d’água de até 18 metros que se
dividem na ilha no alto do Rio Farinha e que caem sobre poções pedregosos que
nem sempre convidam para banhos. Uma trilha curta de 250 metros conecta os
setores superior e inferior daquelas águas violentas.
Na vizinha Cachoeira
São Romão, uma queda potente de 25 metros de altura forma uma imensa piscina de
águas mansas para banho. Dá para alugar caiaque (a partir de R$ 10) para
navegação ou apenas ficar estirado na prainha de areia ao longo do Rio Farinha.
Para admirar uma
chapada ainda pouco explorada, guias mais experientes costumam levar visitantes
na parte posterior da São Romão, seguindo por rotas alternativas, em trilha até
a parte traseira da cachoeira.
Nesse momento, a
Chapada das Mesas prova, sob outra perspectiva, por que ficou conhecida como
Paraíso das Águas e é um dos destinos turísticos mais exclusivos do Brasil. É
como ver a chuva cair constante sobre um rio estreito, rodeado por rochas
vulcânicas, esculpidas pelas águas.
Entrou
areia
Leonardus Amorim
Borges, secretário de Turismo e Cultura de Carolina, explica que são mais de
400 nascentes catalogadas, tanto na área do parque nacional quanto no entorno:
— Tudo isso associado a
22 rios perenes, que formam uma região riquíssima em cachoeiras e cânions para
visitações.
É muita água. Mas muita
areia também.
A 83 quilômetros de Carolina,
53 deles em caminhos off-road, o Parque Nacional da Chapada das Mesas só deve
ser visitado com carros 4x4, não somente pela tração nas rodas, mas também por
conta da altura do veículo para vencer trechos irregulares de areia, como avisa
o guia Oziel Silva Gomes.
A Chapada das Mesas é
quente durante todo o ano, mas é no “verão” local, com início em junho e pico
de estiagem em agosto, que as chuvas dão um tempo e as águas ficam mais
cristalinas. No inverno, não é raro os dias começarem com termômetro já
passando dos 27°C e avançar até a casa dos 40°C ao longo do dia. O período de
chuva costuma ir de setembro a meados de maio.
Fora das áreas do
parque nacional propriamente ditas, o turismo acontece mesmo é no quintal de
propriedades privadas, cujos donos vêm descobrindo que as atrações turísticas
com alto potencial “cênico” estavam dentro de casa. É o caso de uma família
que, há 24 anos, comprou por R$ 5 mil um terreno de 23 alqueires, sem ter noção
de que se tornaria um dos cartões-postais mais famosos do destino.
Pontos
literalmente altos
É onde fica o Portal da
Chapada (entrada a R$ 10 por pessoa), em plena BR-010, onde uma fenda em forma
de mapa do Tocantins contorna a chapada ao fundo, com vista para o Morro do
Chapéu, a meseta mais emblemática. Ponto mais alto da região, a rocha de arenito
que lembra um grande chapéu tem subida de 365 metros e acesso exigente até o
topo, não recomendado para sedentários ou pessoas com vertigem. A vista do pôr
do sol, pintando esta e outras formações, não pode ficar fora do roteiro.
Aliás, o destino não tem apenas talento para as águas como para fins de tarde
escandalosos, que parecem lançar no céu matizes de todos os tons.
O ponto mais central
para ver o fim do dia fica ao lado do embarque para as balsas que cruzam até o
vizinho Tocantins. O restaurante Chega Mais, numa plataforma sobre o Rio
Tocantins, é estratégico para o entardecer. E ainda dá para pedir uma
caipirinha e uma moqueca maranhense, inventada pela própria proprietária.
Limite natural entre os
dois estados, o Rio Tocantins dá acesso também à Pedra Encantada, a 22
quilômetros de Carolina. Barcos no estilo voadeira costumam chegar ali no fim
de tarde. A rocha de oito metros de altura fica isolada entre águas, devido ao
alagamento da área para a construção da hidrelétrica de Estreito, em 2010. A silhueta
negra das mesetas ao fundo, recortada pelo céu alaranjado, é um dos visuais
mais marcantes da chapada.
É a parada final de
outro roteiro turístico da região, conhecido como Três Encantos. O passeio de
um dia inteiro inclui um trekking de 10 quilômetros até o Mirante da Chapada
das Mesas e parada para piquenique às margens de um rio no Parque Terra d’Água.
Planeta
água
No total, são 89
cachoeiras catalogadas, 42 delas somente em Carolina e outras 13 no interior do
parque nacional, segundo Deijaci Rego, chefe do Parque Nacional da Chapada das
Mesas. Uma das mais populares é a do Itapecuru (R$ 10 por pessoa), que, na
verdade, são duas e atende também pelo nome de Cachoeiras Gêmeas. Nesse
empreendimento em área particular, a 30 quilômetros de Carolina, a versão
selvagem da Chapada das Mesas dá lugar a um ambiente mais urbanizado, com cara
de clube, e estrutura com restaurante com sistema self-service. Bancos de areia
formam pequenas praias com as águas dessas quedas de oito a dez metros de
altura, ideais para prática de caiaque, disponível também para aluguel.
Mais
infraestrutura
Já o Complexo Turístico
de Pedra Caída é uma espécie de parque de diversões para amantes de cachoeira.
São 25 quedas e 23 rios, numa área de 13.600 hectares. As cachoeiras do Capelão
e da Caverna (R$ 50) podem ser conhecidas numa mesma visita, a partir de
trilhas curtas de 150 metros. A primeira é uma queda de 20 metros escondida em
mata fechada, que escorre por rochas negras até uma piscina natural de águas
claras, com até três metros de profundidade. Dali, pode-se seguir de carro até
um passeio para a Cachoeira da Caverna, com direito a uma trilha pelo interior
de uma caverna e poço formado por uma queda de 12 metros.
Pedra Caída é a Chapada
das Mesas bem estruturada, onde passarelas de madeira nos deixam na boca de
cavernas, cânions e cachoeiras, em sete diferentes opções de roteiros guiados.
Ainda que seja uma espécie de hotel com parque aquático, com direito a recreação
na piscina e avisos aos visitantes e hóspedes por alto-falantes, tudo tem
cenografia natural, em ambiente que beira o sagrado. E não é de hoje. Flávio
Rodrigues da Silva, gerente do complexo, conta que os índios Timbira
acreditavam que o Santuário da Pedra Caída era como uma mãe protetora e um
local milagroso para cerimônias, no interior do cânion:
—
Era como um lugar de renovação.
O ponto alto do
complexo (e da emoção) é a Cachoeira do Santuário (R$ 30), queda de 46 metros
de altura que cai no interior de um amplo salão natural, dentro de um cânion de
dois mil metros de extensão. O percurso de 600 metros segue um corredor por uma
falha geológica com paredões de cerca de 50 metros de altura. Ele termina, à
direita, num acesso à gruta que abriga a cachoeira.
Subida
e descida com emoção
O Complexo Turístico de
Pedra Caída conta com um teleférico (R$ 60), que sobe em cerca de 20 minutos
até o ponto mais alto do complexo, a 398 metros de altura. Pode-se voltar pelo
próprio teleférico ou por uma trilha de 860 metros em zigue-zague em meio à
vegetação (R$ 30). Tem ainda uma opção mais radical. Duas tirolesas partem do
alto do complexo, ao lado de uma pirâmide de energia, e sobrevoam a região, em
trajetos que vão de 1.200 (a Tirolesa do Pânico, a partir de R$ 70) a 1.400
metros de extensão (Tirolesa do Desespero, a partir de R$ 90), a uma velocidade
de 70 km/h, conforme os ventos.
O restaurante completa
a bem estruturada atração com pratos fartos como picanha com macaxeira frita
(R$ 45), filé de tilápia com risoto de pequi (R$ 69) e filé na crosta de alho
com risoto de legumes (R$ 45).
No
meio do caminho, engenhos e rapadura
O turismo pé no chão
acontece em áreas rurais no entorno de Carolina, como a Fazenda Sobradinho,
onde a produção de rapaduras temperadas com gengibre ganha outros tons com as
histórias contadas por “seu João”. Há 45 anos, João Alves de Andrade tem os pés
no engenho de moagem, movido por bois, e os olhos nos tijolos em que despeja a
massa quente que vai dar forma à rapadura.
— É uma rapadura
natural da cana, moída na madeira de jatobá — ele conta. — É um doce que todo
mundo acha bom, porque não tem mistura nenhuma. O pessoal se dá bem com essa
daqui.
Um
doce suvenir
Segundo o secretário
Leonardus Amorim Borges, o turismo de contemplação na Chapada das Mesas tem
cerca de 30 anos, mas desde o ano passado está se diversificando, com roteiros
que passam por engenhos de cana. Além de ouvir histórias que o dono da fazenda
vai costurando, o visitante pode acompanhar o processo de moagem da cana e da
fabricação do produto nas gamelas, tomar garapa na cuia e, se ficar mais um
pouco, ainda provar coalhada com paçoca, na mesa da cozinha da fazenda. Tudo
dentro de uma simplicidade que este trecho do Maranhão ainda consegue preservar
e garantir aos forasteiros. E ainda dá para levar alguns tijolos de rapadura
para casa. Mas na Chapada das Mesas não basta apenas levar lembranças, tem que
deixar algo em troca.
Na Vereda Bonita, a
proposta é o turismo sustentável, numa propriedade de 98 hectares, dos quais
quatro margeiam o Rio Pedra Caída. Além de recuperar uma APP (Área de
Preservação Permanente), o casal Marcelo Assub Amaral e Valéria Petinaris
recebe visitantes com atividades que sempre terminam com o plantio de uma
árvore. Nesta estância ecológica, a cerca de 38 quilômetros de Carolina, é
possível fazer trilhas ecológicas de até nove quilômetros de extensão ou seguir
pela floresta alagada no rio dos fundos da propriedade, a bordo de caiaques ou
de pranchas de stand up paddle.
— Você aprecia a
natureza e as belezas naturais que a Chapada tem e, ao mesmo tempo, realiza
práticas ambientais como o plantio de mudas — diz Marcelo, que também trabalha
com fabricação de cadeiras de buriti e artesanato. — A vereda é como um turismo
underground, o lado B da Chapada.
Destino mais frequente
de turistas do próprio Maranhão e dos vizinhos Tocantins e Pará, a Chapada das
Mesas vê suas atrações lotarem em feriados e períodos de férias. Para não
estragar o clima de viagem selvagem, procure visitar a região durante a semana,
quando os locais estão, consideravelmente, mais vazios, e crescem as chances de
você ser o único por ali, como nos casos das piscinas naturais de águas
azuladas.
Tamanho
não é documento
A mais conhecida e com
melhor estrutura, como restaurante e área de lazer, é o Poço Azul (R$ 60), no
município de Riachão. O atrativo é conhecido também pela cachoeira Santa
Bárbara que, do alto de seus 76 metros, figura entre as mais altas da Chapada
das Mesas.
A 135 quilômetros de
Carolina por vias asfaltadas, o atrativo pode ser combinado com o vizinho
Encanto Azul (R$ 20), com estrutura simples e menos visitantes.
Seja qual for sua
escolha, a experiência é bem parecida: florestas fechadas escondem poços de
águas azuis, entre paredões rochosos por ondem escorrem outras pequenas quedas.
Um
‘mundo’ a ser desbravado
A Chapada das Mesas
ainda é um ilustre desconhecido dos destinos do Nordeste. De acordo com a
Secretaria de Turismo de Carolina, o número de visitantes não chegou a 80 mil
em 2017. Muito por conta das longas distâncias das capitais. São 500
quilômetros até Palmas, no Tocantins, ou 850 quilômetros até São Luís, capital
do Maranhão.
Nada disso, no entanto,
impediu o casal Vilmar e Izabel Lieber de largar tudo no Sul do Brasil para
abrir a primeira agência de ecoturismo da Chapada das Mesas, há 26 anos, quando
o turismo na região ainda era voltado apenas para quem estava de passagem ou a
trabalho.
— Cinco dias depois da
nossa primeira visita, já estávamos de volta para morar em Carolina, numa época
em que só existiam a Pedra Caída e as cachoeiras de Itapecuru como atrativos
turísticos. Era tudo bem rústico — lembra Izabel, uma das proprietárias da
agência Cia do Cerrado.
Segundo lembra Vilmar,
“foi muito difícil mostrar tudo isso para o Brasil”:
— Eram dois malucos
mostrando um lugar desconhecido em eventos de turismo pelo país.
No início dos anos
1990, quando ainda havia a intenção de batizar a região de Mesetas de Carolina,
não havia opções de restaurantes, e a população local sequer havia provado uma
pizza. Daí a ideia do casal de abrir seu segundo estabelecimento, uma pizzaria
no Centro da cidade, cujas primeiras fatias eram distribuídas aos passantes
para que a população conhecesse a novidade gastronômica.
E é preciso admitir, desde
então, pouco parece ter mudado na região. E deve ser difícil encontrar outro
lugar no Brasil que surpreenda tanto quanto a Chapada das Mesas.
Fonte: JORNAL O GLOBO - 26/07/2018 - POR EDUARDO VESSONI
Leia mais:
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